
Branding é estratégia ou execução?
Ao longo de mais de duas décadas trabalhando diretamente com empresas de diferentes setores e portes, tivemos a oportunidade de acompanhar de perto a evolução estratégica de diversas marcas. Entre elas estão Frimesa, Portinari, Elizabeth Revestimentos, Tradener, Agroallianz, Alexandria Energia, Foxlux, Laguna, Vitao, Ninfa Alimentos, RPC e Credi BRF. Cada uma delas com contextos, desafios e estágios de maturidade distintos, mas todas com algo em comum: a necessidade de fortalecer suas marcas como ativos estratégicos de negócio.
Essa experiência reforçou algo importante. Branding não é uma disciplina restrita a grandes corporações ou marcas globais. Empresas de diferentes portes podem, e devem, estruturar suas marcas de forma estratégica para crescer com mais consistência e gerar valor ao longo do tempo.
Ao observar de perto a realidade das organizações, percebemos também um padrão recorrente. Grande parte das empresas reconhece a importância do branding, investe em projetos de posicionamento e participa de processos estruturados de definição estratégica. No entanto, não é raro que, algum tempo depois, essa direção acabe sendo abandonada ou diluída nas ações diárias.
Normalmente, dois problemas surgem nesse momento. O primeiro é a dificuldade de compreender com clareza o que foi realmente proposto no projeto de branding. Muitas entregas de consultoria acabam sendo excessivamente técnicas, cheias de gráficos, frameworks e terminologias que tornam o resultado confuso para quem precisa aplicar a estratégia. O segundo problema é a dificuldade de transformar o pensamento estratégico em prática cotidiana. A empresa até acredita na direção definida, mas não sabe exatamente como aplicá-la nas decisões do dia a dia.
Foi observando essas situações de forma recorrente que começamos a refletir sobre como tornar o branding mais claro, aplicável e sustentável ao longo do tempo.
Da teoria à prática: a construção de um método próprio
A literatura de branding é ampla e extremamente rica. Autores como David Aaker, Kevin Keller, Jean-Noël Kapferer, Marty Neumeier e Alice Tybout, professora da Kellogg School of Management, ajudaram a consolidar conceitos fundamentais sobre valor de marca, associações, identidade e posicionamento. Inclusive, tivemos a oportunidade de aprofundar esse conhecimento por meio de cursos e estudos, diretamente com alguns desses autores e escolas.
Essas contribuições foram essenciais para o desenvolvimento da disciplina. No entanto, a prática cotidiana das empresas exige algo além da compreensão conceitual.
Ela exige clareza para decidir, consistência para executar e método para sustentar escolhas ao longo do tempo.
Foi a partir dessa necessidade que desenvolvemos na Brainbox um método próprio de planejamento e gestão de marca. Um método que dialoga com os principais fundamentos teóricos do branding, mas concebido para responder às demandas reais das empresas brasileiras e ao ambiente competitivo em que atuam.
Esse processo resultou em uma estrutura simples de entender, mas robusta em conteúdo, organizada em três grandes etapas.
Mapear, Direcionar e Navegar
Nossa metodologia utiliza uma analogia inspirada na navegação.
Assim como um capitão não conduz um navio apenas com intuição, a construção de uma marca forte também exige leitura de contexto, direção clara e capacidade de condução ao longo do percurso.
A primeira etapa é Mapear.
Aqui buscamos compreender profundamente o território em que a marca está inserida. Investigamos o mercado, a concorrência, a cultura organizacional, os públicos, os desafios estratégicos e os dados primários (ad hoc) e secundários disponíveis, sempre primando pelo cruzamento de metodologias e técnicas. É o momento de entender o cenário com precisão antes de tomar qualquer decisão.
A segunda etapa é Direcionar.
Com base no diagnóstico realizado, organizamos o pensamento estratégico da marca. Definimos posicionamento, território competitivo, diferenciação, plataforma de marca e critérios que orientarão as decisões futuras. É nesse momento que a estratégia ganha clareza e coerência.
A terceira etapa é Navegar.
Aqui a estratégia se materializa. Nome, identidade verbal, identidade visual, design de embalagem, ambientes e comunicação passam a expressar a direção definida anteriormente. Mais do que criar peças ou ativos de design, essa etapa garante que a marca seja aplicada de forma consistente e relevante no mercado.
Assim como na navegação real, o percurso nunca é linear. Ventos mudam, o mar se altera, surgem novos desafios. O papel do método é garantir que, mesmo diante dessas variações, o navio continue seguindo na direção correta.
O ponto central: traduzir estratégia em percepção
Ao longo do desenvolvimento desse método, identificamos um ponto crítico na gestão de marcas.
A maioria das metodologias ajuda a definir o posicionamento, mas poucas ajudam a traduzi-lo em percepção concreta ao longo do tempo.
Ou seja, dizem o que a marca deve ser, mas não deixam claro como ela precisa ser compreendida, sentida e reconhecida pelas pessoas.
Foi a partir dessa lacuna que desenvolvemos uma das estruturas centrais da nossa metodologia: o Círculo de Associações®.
Diferentemente de outras abordagens tradicionais de branding, essa ferramenta organiza a construção da marca a partir do ponto de vista do público. Em vez de começar pelo discurso interno da empresa, partimos da pergunta essencial: o que as pessoas precisam compreender, sentir e vivenciar para que a marca seja reconhecida da forma desejada?
Essa mudança de perspectiva torna o posicionamento muito mais tangível. Ao estruturar as associações da marca em níveis progressivos de entendimento, o método orienta a criação da linguagem, da comunicação e das experiências de forma sequencial e gradual.
Marcas não são compreendidas instantaneamente. Elas precisam de tempo para construir significado.
Ao separar esses momentos e movimentos, evitamos dois erros comuns: a ansiedade de querer comunicar tudo ao mesmo tempo e a tentativa de pular etapas fundamentais na construção das percepções. Com isso, a comunicação se torna mais focada, os esforços se concentram no que é prioritário e os investimentos ganham maior eficiência ao longo do tempo.
Branding como sistema vivo
Quando se trata de branding, dominar as teorias não é suficiente. Da mesma forma, executar design sem direção estratégica também não gera valor consistente.
A construção de marcas fortes ocorre quando pensamento estratégico e execução caminham juntos, operando como partes de um mesmo sistema.
Estratégia sem aplicação vira discurso.
Execução sem estratégia vira ruído.
Na Brainbox, buscamos integrar essas duas dimensões de forma clara e prática, ajudando empresas a organizar a complexidade, tomar decisões com mais segurança e construir marcas capazes de gerar valor real ao longo do tempo.
Sua marca precisa de direção clara para navegar com força total em um mercado cada vez mais complexo?
Vamos conversar.
Artigo por Zeh Henrique Rodrigues, sócio-diretor de Estratégias de Branding & Varejo.





